RELATÓRIO
maio 2026
A nova geopolítica dos alimentos
E a construção de políticas para a autossuficiência resiliente
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Uma nova geopolítica dos alimentos está reconfigurando a segurança alimentar global. Guerras comerciais, conflitos, mudanças climáticas, cortes na ajuda internacional e tensões políticas estão alimentando a volatilidade dos preços, agravando a fome e fortalecendo o poder corporativo. Essa turbulência expõe a fragilidade dos sistemas alimentares baseados na dependência dos mercados globais e em cadeias de abastecimento “just-in-time”.
A nova geopolítica dos alimentos examina como os sistemas alimentares de muitos países são profundamente vulneráveis e dependentes de mercados distantes, cadeias de abastecimento frágeis e de um pequeno grupo de grandes exportadores e corporações, especialmente no caso dos países dependentes de importações alimentares e dos consumidores de baixa renda.
Este relatório especial destaca ferramentas práticas que podem ajudar os países a estabilizar preços, proteger o acesso à alimentação e reduzir a vulnerabilidade a choques externos. Com base nas experiências da Índia, da África Ocidental, do Canadá e da Noruega, o relatório mostra como os governos já utilizam estoques públicos de alimentos e instrumentos de gestão de mercado para apoiar agricultores e fortalecer a resiliência.
O IPES-Food defende que os governos avancem rumo a uma autossuficiência resiliente: fortalecer os sistemas alimentares nacionais e regionais, reduzir a dependência de mercados globais voláteis e investir em agroecologia, infraestrutura alimentar pública e comércio justo e cooperativo.

Jennifer Clapp, especialista do IPES-Food
Estamos entrando em uma nova geopolítica dos alimentos, em que os preços dos alimentos são moldados por conflitos, perturbações comerciais e disputas de poder. Crise após crise, ficam evidentes os riscos de transferir a segurança alimentar para mercados distantes e cadeias de abastecimento frágeis controladas por um pequeno grupo de países e empresas.
O caminho a seguir é uma autonomia resiliente, baseada em sistemas alimentares locais sustentados por um comércio justo. As ferramentas para estabilizar os preços já existem, desde os estoques públicos de alimentos até os mecanismos de gestão da oferta, mas os governos ainda não as utilizam em larga escala.
Jennifer Clapp, especialista do IPES-Food

Shalmali Guttal, especialista do IPES-Food
Para as comunidades do Sul Global, trata-se de uma questão fundamental: se as pessoas conseguem pagar pela alimentação. Quando os países são forçados a depender da importação de alimentos e insumos agrícolas, cada choque atinge com mais força o nível local. Agricultores, trabalhadores e famílias de baixa renda são os que acabam pagando o preço. Esse sistema não é apenas frágil, mas também profundamente injusto.
Precisamos reconstruir os sistemas alimentares desde a base, mais próximos dos territórios, com soberania alimentar: uma produção local fortalecida, mercados mais justos, sistemas de distribuição direcionados e subsídios alimentares, além de ferramentas para proteger as populações quando os choques acontecem.
Shalmali Guttal, especialista do IPES-Food

Mamadou Goïta, especialista do IPES-Food e agricultor
As tensões geopolíticas estão aumentando a pressão sobre os países do Sul Global, que enfrentam dificuldades para garantir alimentos a preços acessíveis. À medida que aumentam os custos das importações de alimentos e fertilizantes, a dívida também cresce, deixando os governos com menos margem de ação justamente quando mais precisam dela. É por isso que reduzir a dependência não é uma escolha, mas uma necessidade.
Já existem soluções. A reserva regional de segurança alimentar da África Ocidental mostra que a cooperação e os instrumentos públicos podem estabilizar os mercados. O que falta agora é vontade política para ampliar esses esforços, reduzir a dependência de mercados globais voláteis e construir uma resiliência duradoura.
Mamadou Goïta, especialista do IPES-Food e agricultor


